Um forte abraço a todos!

Caros Amigos,

Como a maioria já saberá, foi hoje promulgada pelo Presidente da República a Lei do Aborto. Sem porquês, sem quaisquer condicionamentos, sejam de natureza jurídico-constitucional sejam de natureza político-social. Foi simplesmente promulgada.

Foi notório o meu (nosso) silêncio, enquanto membro da Comissão Executiva do Norte pela Vida, desde o dia 11 de Fevereiro. Para além da nossa declaração pública na sede, ao final da noite, dirigida a todos na voz do Luis Graça através da comunicação social, não mais demos notícias nem dirigimos uma qualquer palavra de reconhecimento, agradecimento, esperança ou desafio.

Sinceramente, no que me toca, foi assim porque tinha que ser. Sem prejuízo das diligências, já sem grande alcance, que fomos fazendo junto da Assembleia da República e da Presidência da República, mais por adesão aos esforços da extinta Plataforma do que por nossa iniciativa, a verdade é que mantivemos um prudente silêncio (se me permitem a adjectivação). Na realidade, adivinhava-se este dia com os exactos contornos que veio a ter.

O Aborto é mesmo livre, totalmente livre.

Bem, mas é neste dia e nesta hora que se exige uma palavra.

Recordo-me bem daquela fria noite de finais de Novembro, em que alguns de nós se reuniram na Rua Aires Gouveia, em frente ao Hospital de Santo António. Estávamos ali correspondendo a um apelo difundido via e-mail. E já aí começámos por não ser poucos – éramos mais de 50 vozes, cada um com a sua sensibilidade e disponibilidade.

A ordem de trabalhos não estava definida, ou melhor, era a de sempre – a luta pela VIDA!

Se bem se lembram, ainda não estava marcada a data do referendo.

A reunião não foi mais do que dela esperávamos: havia que criar um movimento de cidadãos, que tendencialmente representaria o Norte do país na campanha que se avizinhava; esperava-se que um pequeno grupo de voluntários (auto-designado “comissão executiva”) tratasse de iniciar os “pequenos” detalhes indispensáveis à “empreitada”.

E assim começou todo um trabalho pela Vida em que quase tudo estava por definir: a mensagem, a declaração de princípios, o nome do movimento, o logótipo, os mandatários, o orçamento. E mais: as assinaturas e organização da recolha, a corrida de São Silvestre, a sessão de apresentação, a sede, as iniciativas, deslocações, debates, entrevistas, reacções, assessoria de imprensa, imagem, panfletos, outdoors, material de campanha como bandeiras, t-shirts, gorros, pulseiras, autocolantes, pins, etc, o financiamento (com imensas e delicadas diligências), a formalização do movimento, os contactos com outros movimentos e com figuras públicas que nos pudessem ajudar. Fizeram-se arruadas, caminhadas, passeios de barco, de bicicleta, de autocarro. Jogos de futebol com grandes estrelas. De nós nasceu o mais fantástico movimento de médicos. Estivemos em todos os concelhos do distrito do Porto, e fomos mais longe sempre que nos pediram.

Caros Amigos, nós não falhámos! O Norte pela Vida não falhou!

Perguntarão: mas porquê exaltar todo este trabalho – o nosso trabalho – em defesa da VIDA?

Como sublinhámos na declaração da noite de 11 de Fevereiro, pela voz do Luís, este nosso empenho, trabalho e dedicação, não resulta de um qualquer programa político-partidário. É antes a decorrência lógica e coerente da nossa maneira de ser e de pensar. E é aqui que nós somos diferentes!

O dia 11 de Fevereiro, e agora o dia 10 de Abril, não são o termo do nosso empenho, trabalho e dedicação. Pelo contrário, é agora que temos que demonstrar a nossa coerência e diferença. A VIDA assim o exige, e nós não deixaremos de corresponder.

É assim que peço a todos que se dediquem, de acordo com a disponibilidade e as circunstâncias de cada um, à causa da VIDA.

Como, perguntarão.

Não sei mas tenho sugestões a fazer:

A primeira, como condição sine qua non, é a de que nos esforcemos verdadeira e consequentemente, com a sustentabilidade financeira das associações já existentes (aqui no Porto, o Vida Norte e as Mulheres em Acção, e em Famalicão, o Tudo pela Vida). Não podemos viver tranquilos com a agonia financeira destas associações que são o instrumento essencial para a institucionalização da defesa da VIDA. Recorram a todos os contactos que tiverem e não se conformem!

A segunda sugestão passa necessariamente pelo voluntariado junto dessas instituições. Quantas vezes damos por nós a dedicarmo-nos a causas tão menos importantes? A causa da VIDA, mais do que nunca, precisa de todos!

A terceira, mais complexa, prende-se com a necessidade de fomentarmos no nosso convívio social, profissional, familiar, uma cultura de exigência e de fundamento relativamente às questões essenciais da VIDA. Provavelmente, uma das principais causas do insucesso de 11 de Fevereiro terá residido na nossa demissão em formarmos consciências contrastada com a atitude militante dos nossos adversários.

Tenho mais ideias – todos teremos. Permitam que me fique por estas três.

Como terão percebido, sinto a garganta inflamada e muito mais teria para dizer, ou melhor, desabafar com todos.

Fica aqui esta resanha, sugestões e desafios, mas não termino sem antes soltar a palavra devida a TODOS desde 11 de Fevereiro:

Muito Obrigado!


José Maria Montenegro


PS. A propósito de Cavaco Silva limito-me a recordar as sábias palavras do Frei Luís de Granada “menos perigoso é o inimigo público do que o traidor secreto, e menos dano faz o lobo na figura de lobo do que com pele de ovelha”.

Dois poemas (II)

Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dedico este poema àqueles que nunca terão a oportunidade de sentir o amargo sabor da derrota.
Dedico-o também aos sábios, aos subtis e aos peritos. Eles sabem quem são.

Dois poemas (I)

É evidente que estou triste.
Acredito honesta e francamente que a opção tomada ontem é errada. É eticamente censurável e - mesmo numa perspectiva de realismo político - é um erro tremendo. Não resolve os problemas, agrava os existentes e desperdiça recursos que poderiam ser profundamente úteis quando bem aplicados.
Nunca quis impôr uma moral particular, quis criar um Portugal moderno, orgulhoso do respeito que tem pela vida humana.
Estou muito triste.
Hoje soaram vezes e vezes sem conta na minha cabeça dois poemas que já aqui tinham sido transcritos. Não consigo evitar voltar a transcrevê-los. Neste post um; no próximo o outro. Ambos serão seguidos de dedicatórias.

Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz NÃO.

Manuel Alegre

Agradeço com este poema a todos quantos desinteressada e honestamente se dedicaram a esta batalha. Foram muitos os exemplos de quem - dando a cara ou nos bastidores - se entregou a um sonho com grande prejuízo da sua vida pessoal e profissional. Nomeá-los um a um seria impossível pois facilmente se atinge várias centenas. Dentro e fora do Norte Pela Vida. São exemplos que guardarei para sempre e que procurarei honrar nas batalhas que se seguirem em prol do respeito pela dignidade da vida humana.

Agradeço a todos os que "Semeiam canções no vento que passa", dia a dia, junto de mulheres em dificuldades e de crianças "não desejadas" e sentem agora que o seu trabalho é alvo de chacota, que o seu trabalho não é reconhecido, que o seu trabalho não merece que o Estado nele invista. São palavras de incentivo que tenho para todos eles e um pedido desesperado para que continuem a trilhar o caminho certo. O caminho do progresso. O tempo mostrará que temos razão.

Agenda Final de Campanha - PRECISAMOS DE TODOS!





Estamos, como sabem, no nosso esforço final deste percurso em defesa da VIDA

Hoje, DIA 7 de Fevereiro, quarta-feira:

- Desportistas pelo Não – 18h30 no pavilhão do Colégio Cedros (V.N. Gaia – Jardins d`Arrábida), com a presença de ex e actuais atletas profissionais (entre outros, Nélson, Aloísio, Rui Barros, Drulovic, Semedo, Paulo Assunção, Adriano, etc). Quem quiser participar no jogo de futebol que vamos fazer deve ir equipado com a t-shirt do Norte pela Vida;

- Colóquio "Vale Mais Amar – A Ética, A Vida, A Mulher", pelas 21h00, na Casa das Artes, em Famalicão – com Bagão Félix e Aguiar-Branco - temos que estar muitos (é um auditório com 500 lugares que tem que estar cheio).

Amanhã, DIA 8 de Fevereiro, quinta-feira:

- Campanha no mercado do Bolhão às 10h30, com encontro na Praça D. João I – precisamos de todos!

- Arruada na Baixa do Porto, às 15h30 – encontro na Praça da Batalha para uma Arruada pela baixa do Porto Dia 9 de Fevereiro, sexta-feira (último dia de campanha!!!);

DIA 9 de Fevereiro, sexta-feira (ÚLTIMO DIA DE CAMPANHA):

- TODO O DIA NA RUA A DISTRIBUIR PANFLETOS E TODO O MATERIAL DE CAMPANHA (Gorros, Pin`s, Balões, etc) – encontro na sede, com saída de equipas para a rua a todas as horas – são todos INDISPENSÁVEIS!!!

- Mega Festa de Encerramento em Braga de todos os Movimentos do Não

19h30 - Concentração na Arcada (Av. Central) em Braga:
20h30 - Caminhada pela Vida até ao Parque de Exposições de Braga (PEB)
21h30 - Festa de encerramento no PEB. Conta com a presença de vários artistas de música bem como figuras públicas na área da política, desporto e letras
23h15 - Fim

"Por opção da mulher?"

Conheci o Pedro quando entrei para a faculdade. Por alturas do segundo ano do curso, o Pedro disse aos seus colegas e amigos que a sua namorada estava grávida. Tinham decidido casar e, inclusivamente, tinham já escolhido nome para o filho (já sabia que era um rapaz).

A dado momento, deixou de aparecer na Universidade. Durante algumas semanas não veio às aulas e, quando regressou, contou-nos, devastado, o seu drama: subitamente tinha deixado de conseguir contactar a namorada. Tentara, primeiro com insistência depois com desespero, contactá-la pessoalmente, por telefone, por carta. Em vão!

Quando se apercebeu do que poderia estar em causa procurou recorrer às autoridades judiciais e policiais que se disseram impotentes para agir.

Quando voltou a ter notícia já tudo estava consumado. A namorada (aparentemente, sob pressão e protecção familiar) tinha abortado.

Recordo-me da raiva, desespero e sensação de impotência com que relatou uma sucessão de eventos que lhe diziam directamente respeito mas à margem dos quais foi implacavelmente mantido.

Infelizmente, o Pedro já morreu pelo que o seu drama não mais será contado na primeira pessoa. Mas vem-me sempre à memória quando se discute o direito exclusivo da mulher a optar pela prática do aborto. Registo-o como um exemplo de como não é justo remeter para a irrelevância a posição do Pai.

A omissão

O governo (não em nome próprio, mas na prática trata-se de todo o orgão executivo com o Primeiro-Ministro à cabeça) está muito preocupado com o aborto clandestino. É uma preocupação louvável e que se saúda. Mas a grande ideia para acabar com o problema é legalizá-lo até às dez semanas, coisa que o actual chefe do executivo tem defendido de forma dramática e pungente, como há dois dias se pôde verificar.
Pergunto-me então o que têm feito os governos portugueses até agora para resolver o caso. Que tipo de acompanhamento tem sido prestado à maternidade? Que políticas de ajuda às mulheres que engravidaram precocemente, às que dispõem de escassos recursos, às que vivem num ambiente socio-cultural miserável, têm sido desenvolvidas para ajudar estas mulheres? Numa das áreas que requerem a intervenção do estado, os poderes públicos têm sido quase totalmente omissos - para mais, numa matéria que a Constituição expressamente consagra no seu Art. 68º. A uma omissão pretende-se responder com outra, que permite que o aborto se torne numa banalidade, em que um direito esmaga completamente o outro, em lugar de se fazer a cedência mútua necessária em qualquer direito fundamental.
Quando o Estado se demite das suas funções básicas, e a sociedade civil não pode manifestamente acorrer a todos os casos, fica apenas o vazio e a subversão de valores considerados basilares numa sociedade. Que são varridos para debaixo do tapete quando se torna mais cómodo e se regista uma ausência de protecção pública.


Quarta-feira, dia 7, grande iniciativa dos desportistas do NORTE PELA VIDA.

No pavilhão do Colégio Cedros (Jardins d`Arrábida, V. N. Gaia), a partir das 18:15h, terá um grande encontro de "Desportistas pelo NÃO - porque o deporto é vida!"

Temos a presença garantida de vários jogadores de futebol e de muitas outras modalidades, atletas internacionais e de alta competição (entre os quais, o Aloísio, o Paulo Assunção, o Nélson, o Drulovic, entre muitos outros).

Vamos todos marcar presença nesta festa que vai marcar a campanha da VIDA!

Não faltem!

PS. O Lourenço do trompete (ver foto) vai marcar o ritmo desta festa!

Amanhã, dia 6 de Fevereiro, será a “Grande Homenagem às Mulheres Portuguesas”

Faremos um passeio de barco pelo rio Douro, só com mulheres.

O ponto de encontro é às 15h00 (a pontualidade é importante) em frente à Praça Sandeman (Gaia).

Pedimos a todas as mulheres que participem nesta iniciativa!

Apareçam e divulguem pelas vossas mães, irmãs e amigas.

Todas serão sempre de menos!

DÁ GAS À VIDA

Domingo estamos todos convocados para aquela que será, sem dúvida, a nossa maior iniciativa de rua nesta campanha pela Vida.
Quem tiver bicicleta, compareça na entrada norte do Parque da Cidade às 14h. Para quem for a pé, o ponto de encontro é no Cubo, na Praça da Ribeira a partir das 15h.
Vamos atravessar a ponto de D.Luís e dirigir-nos para o Cais de Gaia, na GRANDE CAMINHADA DO NORTE.
Tragam um amigo e APAREÇAM - TEMOS TODOS QUE ALINHAR!

Acções de Campanha - AMANHÃ - Sábado

Amanhã temos um dia em cheio:

- DE MANHÃ: distribuição de panfletos nas feiras de Senhora da Hora e de Santo Tirso. Pedimos que compareçam às 10h na sede do NORTEpelaVIDA. Precisamos de muitos voluntários!

- DE TARDE: bancadas pelo NÃO (Foz, Matosinhos, Gaia) e distribuição de panfletos na feira de Custóias - compareçam na sede às 14h, em FORÇA!

- FINAL DA TARDE: distribuição de panfletos no exterior do estádio do Dragão - compareçam na sede às 18h.

ESTE É O ÚLTIMO FIM-DE-SEMANA ANTES DO REFERENDO! É-NOS PEDIDO UM ESFORÇO SUPLEMENTAR!

"Arruada" - dia 2 - Partida da Batalha às 16horas


Anunciamos o grande evento de campanha - uma "arruada" - que o NORTEpelaVIDA vai realizar amanhã, sexta-feira, dia 2. Partimos da Praça da Batalha às 16h, percorremos a Rua de Santa Catarina, acompanhados de música e grande animação, distribuindo panfletos e conversando com as pessoas. Precisamos do máximo de pessoas!!
Temos que alinhar!!! Tragam um amigo e APAREÇAM - temos que nos comprometer.

A liberalização só existe nas nossas cabeças
Faz-me alguma confusão ouvir dizer que "o que está previsto no referendo é só a despenalização, não a liberalização". Porquê? Ao que consta, por causa do direito à objecção de consciência (coisa que nem todos acham bem). Pode ser de mim, mas não estou a ver muito bem tal objecção ser invocada em todos os casos. Caso um médico se recuse efectivamente a fazer um aborto, o seguinte já deverá aceitar perfeitamente a incumbência. Em estabelecimento de saúde do estado. Se isto não é liberalização, então eu não seio que será. A não ser que até este regime seja considerado "penalizador" e "arcaico" e se pretenda liberalizar o aborto até um número indefinido de semanas.

Somos Médicos, Por isso Não!

A Sessão Aberta de Esclarecimento do movimento "Somos Médicos, Por isso Não!" é já neste sábado, dia 27, às 19:45h, na Alfândega do Porto.


Como é a vida às 10 semanas?
Aborto: que consequências para a mulher?
Promoção da Saúde: que mudanças propomos?

- Prof.ª Doutora Júlia Maciel
- Prof. Doutor Nuno Montenegro
- Dra. Manuela Cunha
- Prof. Doutor Adriano Vaz Serra
- Dra. Ana Tato
- Prof. Doutor Manuel Antunes
- Joana Monteiro e Filipa Bianchi

O programa e oradores falam por si! Não podemos faltar!

Somos Médicos, Por isso Não!

A Sessão Aberta de Esclarecimento do movimento "Somos Médicos, Por isso Não!" é já neste sábado, dia 27, às 19:45h, na Alfândega do Porto.


Como é a vida às 10 semanas?
Aborto: que consequências para a mulher?
Promoção da Saúde: que mudanças propomos?

- Prof.ª Doutora Júlia Maciel
- Prof. Doutor Nuno Montenegro
- Dra. Manuela Cunha
- Prof. Doutor Adriano Vaz Serra
- Dra. Ana Tato
- Prof. Doutor Manuel Antunes
- Joana Monteiro e Filipa Bianchi

O programa e oradores falam por si! Não podemos faltar!

Razões símples para votar NÃO

Citando o Tiago Azevedo Fernandes:

1) É inquestionável que se trata de vida humana (sublinho que não estou sequer a presumir que se trata de uma "pessoa").
2) Essa vida tem algum valor, mesmo que o peso desse valor não seja consensual;
3) O que se pretende com a nova lei é abolir toda e qualquer protecção do Estado a essa vida até às 10 semanas;
4) O que se pretende com a nova lei é dar à mulher, com carácter de exclusividade (nem o pai?!), o poder de decidir terminar essa vida.
5) Passando a ser um direito da mulher, a sociedade, através do Estado, vai obviamente ser obrigada a colaborar com esse acto que ninguém defende como desejável.
6) Com a nova lei vão continuar a ser penalizadas as mulheres que abortarem a partir das 10 semanas.

Não chega?

Comparações apressadas
Segundo alguns defensores da liberalização do aborto, se o sim à alteração da lei ganhar, Portugal ficará ao nível "dos países civilizados", que permitem a "escolha". É certo que o nosso país, na maioria dos casos, está longe de muitos padrões de civilização que caracterizam quase toda a Europa, os Estados Unidos ou a Oceania. Mas se há excepções, a defesa da vida humana é precisamente a mais notória. Seria bom relembrar, por exemplo, o baixíssimo nível de mortalidade infantil que há entre nós.
Mais conhecido é o pioneirismo português na abolição da pena de morte. A última execução ocorreu em 1846, em Lagos, e a pena foi abolida em 1867, com a aprovação de noventa por cento dos deputados das Cortes. Muito antes da maioria dos nossos vizinhos europeus: relembre-se que a Espanha, em 1975, ainda executava pessoas com garrote; o Reino Unido só aboliu a pena capital em 1973, e a França em 1981. Quanto aos Estados Unidos, onde o aborto também é livre, são bem conhecidos os tristes números dos seus corredores da morte, onde durante anos se acumulam presos destinados à injecção letal, à cadeira eléctrica e mesmo à forca (ainda prevista em alguns estados).
Por isso, seria mais sensato fazer as comparações com os ditos "países civilizados" com base em valores idênticos, e não em razões socio-económicas, ou de outra natureza, que, por muito importantes que sejam, não são comparáveis ao direito universal à vida humana. Podemos - leia-se "os portugueses" - precisar de infinitas lições, mas neste caso creio que nos cabe a nós administrá-las a outros que só tardiamente chegaram a um patamar que há muito já ocupávamos.

RECADO

Conheço um rapaz de 16 anos que está muito empenhado em defender a Vida. É um dos resistentes. Já vão perceber porquê.
Disse-me: "Deixe-me ir consigo a um debate. Eu quero saber como é. Eu quero dizer uma coisa." E pôs a sua ideia por escrito.
"Chamo-me "X" e frequento uma instituição de protecção de crianças e jovens. Soube que os defensores do "sim" ao aborto mencionaram que as crianças das instituições são infelizes, se calhar não deviam ter nascido. Aí é que se enganam. A minha mãe, apesar das dificuldades nunca abortou e é graças a eu estar numa instituição que eu tenho um caminho que me fará alguém na vida. Por isso, se não sabem, não falem, porque ninguém escolhe as suas raízes, não nasci num berço de ouro e não é por isso que deveria ser morto quando era indefeso. E agradeço a força da minha mãe por me ter deixado nascer para eu dizer a Portugal que as crianças institucionalizadas não são infelizes, eu pelo menos não sou e conheço outros que dizem o mesmo".

Descriminalização relativa?

A campanha do “sim” tem procurado suavizar e mitigar o impacto da proposta que defende recorrendo ao argumento de que o que está em causa é uma mera ampliação do leque de situações excepcionais em que a lei considera que o aborto não deve ser punido.

Por exemplo, Daniel Oliveira escreveu no jornal “Expresso” do passado dia 13 de Janeiro que, se o “sim” vencer, verificar-se-á um simples “alargamento das razões em que não se condena a mulher em tribunal”. Por sua vez, Maria José Morgado, numa conferência que teve lugar na Assembleia da República esta semana, manifestou concordância com uma “descriminalização relativa do aborto até às 10 semanas”.

Entendamo-nos. Haveria um “alargamento das razões” se a lei passasse a prever novas excepções para determinadas situações tipo. Mas não é o que acontecerá se o “sim” vencer pois, nesse caso, não será preciso encontrar na lei qualquer “razão” para abortar até às 10 semanas.

Por sua vez, a qualificação da proposta como “descriminalização relativa” (relativa, porque encontra um limite nas 10 semanas!) parece-me, no mínimo, pouco rigorosa. Porque, até às dez semanas, a descriminalização passaria a ser total e absoluta.

Em resumo, não está em causa a simples inclusão de mais uma alínea no artº 142º do Código Penal. A nova norma legal que se quer introduzir é de natureza diferente. Ao ponto de, até às 10 semanas, transformar em regra o que até hoje eram excepções.

O debate sobre o aborto seria muito diferente se uma parte substancial dos defensores do “sim” estendesse a esta questão a atitude pela qual diz pautar, em geral, a sua intervenção pública.

E, assim sendo, considerasse a questão do aborto:

- Sem tabus e sem “fechar os olhos à realidade”. Prestando atenção, em consequência, à crueza e violência físicas infligidas ao embrião;

- Pelo prisma da protecção dos mais fracos e dos que se assumem como a “voz dos que não têm voz”. Prestando atenção, em consequência, ao valor do embrião;

- Com um intuito de transformação da sociedade e de construção de um mundo mais justo e melhor. Prestando atenção, em consequência, à necessidade de suplantar a prática social existente em vez de a consagrar com força de lei.

Norte Pela Vida - Famalicão


Na inauguração da sede do Norte Pela Vida em Famalicão, António Meireles, responsável do Movimento naquele concelho, fez um incisivo discurso do qual apresentamos o seguinte excerto:

"Se é verdade que nunca em Portugal uma mulher foi presa por abortar, também é verdade que não há conhecimento de nenhum julgamento em que estivesse em causa a realização de um aborto até ás 10 semanas.

Assim é fácil depreender que o que está em causa não é a mulher ser ou não julgada ou presa é isso sim um tremendo atentado aos Direitos Humanos.

A Lei, qualquer lei, deve ser considerada como um “Farol” e não como uma guilhotina.
A sociedade não cria as Leis para a subjugarem mas sim para criar um referencial de conduta.
O que seria da sociedade se a Liberalização imperasse e a anarquia se instalasse?

Conforme já aflorei o Aborto não é uma matéria Política, Religiosa, antropológica ou da consciência de cada um.

É sim um atentado aos Direitos Humanos e não pode ser transformado numa matéria puramente economicista, de vontade individual e muito menos de mero negócio.
Por tudo isto LUTO E VOTO PELO NÃO."

Neste álbum ficar a conhecer as duas sedes do NPV - Porto e Famalicão- e ver as fotografias daquela inauguração!

Obrigado à delegação de Famalicão do Norte Pela Vida pela dedicação e pela dinâmica exemplares!

Mais informação!

A partir de agora pode conhecer a sede do Norte Pela Vida aqui.
Está, também, disponível a lista de mandatários do Movimento no separador "Quem Somos".
Venha conhecer-nos melhor!

Até que ponto vale a pena lutar pela vida humana?

Numa sociedade civilizada, em que os direitos do homem são um dado (quase) adquirido e o respeito pela vida humana é um princípio fundamental, a liberalização do aborto por causas valorativamente inferiores, como as económicas, ou simplesmente "porque sim", é na realidade um retrocesso civilizacional, disfarçado de falsa ideia de liberdade. Aquilo que é entendido para muitos como um acto livre não passa na realidade de um facilitismo que anula o direito do mais fraco pelo mais forte. Precisamente o contrário do primado do direito, que impede que uma sociedade regida por princípios e leis se transforme numa selva, em que os mais forte impõem as suas regras consoante as circunstâncias e os estados de espírito. Não esquecer nunca que a liberdade deve ser sempre exercida com a correspondente responsabilidade. Não se percebe é onde pára essa responsabilidade quando se aborta usando como argumento "a liberdade do corpo". Não sendo assim, também um suicida cometeria o seu acto final exercendo a sua "liberdade" de forma "responsável".

Há princípios que são inderrogáveis. A vida humana é sem dúvida o valor primordial, fora do qual existe apenas o vazio. Um vazio que parece ser o objectivo de muitos niilismos sem esperança nem vontade de viver.

Cinismo

Dos vários argumentos invocados pelo “sim” há um que se reveste de particular cinismo: o de que o embrião tem o “direito a ser desejado”.

Segundo o jornal “Público” do passado dia 10 de Janeiro, Rui Rio terá mesmo defendido que este é o “argumento mais forte” a favor da despenalização. E terá acrescentado que “preferia não nascer a ser uma criança indesejada”.

1. A lógica (?) do argumento é a seguinte: uma criança tem “direito a ser desejada”; se tiver a infelicidade se ser concebida sem ser “desejada”, qualifica-se automaticamente a uma segunda infelicidade – a de perder a vida.

Com a agravante de que esta segunda infelicidade é definitiva e irremediável.

Um ser humano não “desejado” às 10 semanas pode vir a sê-lo mais tarde na gravidez. Ou depois do nascimento. E mesmo ao longo da vida. Mas se perder a vida, não mais poderá beneficiar de um tal “direito”.

2. Quando se reconhece um direito, há, necessariamente, que definir quem o pode ou deve garantir. Convinha que aqueles que invocam este argumento clarificassem a quem compete garantir o “direito a ser desejado”.

Ao embrião não será seguramente pois é um mero sujeito passivo neste aspecto. Não está na sua disponibilidade ser ou deixar de ser desejado.

A solução que propõem (a possibilidade de abortar até às 10 semanas) é, no mínimo, estranha e evidencia as contradições do argumento: se o direito não é cumprido, resolve-se o problema pela eliminação do sujeito que dele poderia beneficiar.

3. Se os defensores do “sim” querem atribuir aos pais (ou melhor, à mãe, porque a posição do pai será irrelevante à face da lei) o direito a conformar a realidade dos factos de acordo com a sua vontade (ou “desejo”) que o assumam com clareza! E assumam, ainda e em coerência, que está em causa o aborto como remédio anti-conceptivo.

Mas não se arvorem em defensores dos interesses e direitos do embrião.

Que se remeta o embrião até às 10 semanas a um estado de nula protecção é já, para mim, inadmissível. Mas pretender que se defende um tal regime por altruísmo e em benefício da criança é de um descaramento e de um cinismo atroz!

É hoje a inauguração da nossa sede* (às 21h) seguida de reunião às 21:30h. Não faltem!

* Edifício Botânico, Rua do Campo Alegre, 1256, 4150 Porto

10 semanas


Mais imagens aqui.

Inauguração da Sede do Norte Pela Vida

O Norte Pela Vida convida para a inauguração da sua sede de campanha, na segunda-feira, dia 15, às 21 horas.
Seguir-se-á uma reunião com todos os colaboradores do movimento para dar conta das iniciativas agendadas e coordenar as acções levadas a cabo.
A sede é no Edifício Botânico, Rua do Campo Alegre, 1256, 4150 Porto.(esquina entre a Rua António Cardoso e a Rua do Campo Alegre)
Venha conhecer-nos! Venha conhecer a sua sede de campanha!

Debates e sessões de esclarecimento

O Movimento Norte Pela Vida pretende promover o debate, a informação, o esclarecimento e a mobilização dos eleitores do Distrito do Porto e do concelho de Famalicão para o "Não" no referendo de 11 de Fevereiro.
Cumprindo esse objectivo, o Norte Pela Vida está disponível para participar em todos os debates e sessões de esclarecimento para o qual seja solicitado.
Contamos entre os nossos colaboradores com um grande número de pessoas capazes de abordar a questão do aborto nas suas múltiplas perspectivas: científica, jurídica, médica, assistencial, financeira, etc.
As solicitações devem ser feitas a:
- Inês Ayres 916463346, para os debates;
- Teresa Tomé 919358718, para sessões de esclarecimento.


500 médicos e estudantes de Medicina assinam declaração pelo "Não"
Mais de 500 médicos e estudantes de Medicina assinaram uma declaração de princípios de apoio ao "Não" no referendo de 11 de Fevereiro, anunciou hoje a associação "Somos Médicos, Por Isso Não".
Em comunicado, a associação refere que a declaração foi subscrita, entre outros, por Gentil Martins, Daniel Serrão, Walter Oswald e Isabel Galriça Neto, devendo ser entregue ao bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, em sessão pública "em data a divulgar".
Os subscritores da declaração "acreditam que o aborto livre não é solução e que cabe à sociedade e ao Estado criarem condições de promoção da vida".Esta associação exclusivamente de médicos e estudantes de Medicina está a preparar um "grande evento nacional", em 27 de Janeiro, às 20:00, em simultâneo em Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Viseu, Castelo Branco e outras cidades portuguesas.

A palavra aos poetas (VI)

A natureza em conjunto padece
e como o sofrimento muito a cansa
vinga-se em quem primeiro lhe aparece

e para ser maior essa vingança
já a futura morte transparece
no pequenino rosto da criança

Ruy Belo

Norte Pela Vida - Novos colaboradores

O "nosso" blog tem a partir desta semana novos colaboradores.
Como "espelho" do Norte Pela Vida, o blog tem de receber os contributos de pessoas tão diversas quanto as que integram o nosso movimento. Daí que, entre os nossos colaboradores se possam encontrar médicos, juristas, assistentes sociais, gestores, entre outros.
Assentamos, por isso, a orientação deste espaço em dois pilares:
- o da divulgação ( do movimento, das suas actividades, das suas necessidades,...);
- o da consistência ideológica e de conteúdos (através dos contributos dos nossos colaboradores tentando abarcar quer as questões ético-filosóficas, quer as questões económicas e de saúde pública subjacentes).
Estamos convictos que o nosso contributo será valioso para um debate elevado e consistente sobre a proposta sujeita a referendo.
Esteja atento e seja sempre bem vindo!

A palavra aos poetas (V)

TEMPO DE NÃO

Exausta fujo as arenas do puro intolerável
Os deuses da destruição sentaram-se ao meu lado
A cidade onde habito é rica de desastres
Embora exista a praia lisa que sonhei

Sophia de Mello Breyner Andresen

CONVITE
"Porquê e como colaborar no Não ao aborto"
Trata-se de um Encontro que irá decorrer no Auditório 1 da Universidade Católica do Porto, Rua Diogo Botelho, promovido pela Associação Criança e Vida e com o apoio da Associação Mulheres em Acção, no dia 13 de Janeiro, sábado, às 9 horas. Destina-se aos dirigentes, docentes e colaboradores das IPSS e das Escolas do Distrito do Porto e termina cerca das 12 horas.
Na Mesa Redonda participam o Juiz Pedro Vaz Patto, o Médico Dr. Roberto Roncon, o Psiquiatra Professor Doutor Carlos Ramalheira e terá como moderadora a Dra. Alexandra Tété.
Haverá um período para debate seguido da apresentação de experiências de voluntariado em iniciativas de apoio a grávidas prestado na Associação Norte, Família e Vida, mais conhecida por Vida Norte. Esta apresentação está a cargo da Psicóloga da Obra do Frei Gil, Dra. Graça Fonseca.
Serão abordadas as questões legais, psicológicas e médicas do aborto, prometendo ser uma oportunidade enriquecedora para todos os participantes.
A Comissão de Honra do Encontro é constituída pelo Dr. José Pedro Aguiar-Branco (Mandatário do Norte pela Vida), Professor Doutor Joaquim Azevedo (Presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica), Padre Lino Maia (Presidente da UDIPSS-Porto), Professor Doutor Rodrigo Queirós e Melo (Presidente da Associação dos Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo-Aeep) e Dra. Guilhermina Malvar da Fonseca (Licenciada em Ciências da Educação).
A inscrição é gratuita e deverá ser feita para: criancaevida@clix.pt

Importante - recolha de assinaturas para Castelo Branco

Neste momento, já foram registados 15 grupos cívicos pelo Não.
E faltam só 500 assinaturas ao grupo de Castelo Branco!
Se até sexta-feira ao meio-dia fizermos chegar à Celeste Capelo (96 574 73 47) ou à sede na Praça Duque do Saldanha, 20-1º Dto em Lisboa essas 500 assinaturas, este grupo cívico ainda se pode inscrever da parte da tarde na CNE.
Portanto, vamo a isso: recolher assinaturas nestes impressos http://www.nao-obrigada.org/images/CBranco.pdf e fazê-las chegar atempadamente aos responsáveis.

Citações

«Não pararemos enquanto for possível encontrar nas nossas cidades uma mulher que diga: "Eu abortei porque não encontrei quem me ajudasse" »

(Madre Teresa de Calcutá)

Robin dos Bosques


Ao ler isto no Público:

"Governo recebe relatório preliminarMinistro Correia de Campos rejeita criação de novo imposto na Saúde
11.01.2007 - 11h23 Lusa

O ministro da Saúde, António Correia de Campos, recusou hoje a ideia da introdução de um novo imposto para sustentar o Sistema Nacional de Saúde, que consta do relatório preliminar de uma comissão de peritos nomeada pelo Governo."

é inevitável pensar: será que estão a pensar criar um imposto para me fazer pagar um novo custo que o SNS pode vir a ter de suportar?
Parece-me um Robin dos Bosques ao contrário: rouba aos contribuintes e dá às clínicas privadas...

"Obrigadas a abortar"



Achei no mínimo curioso ver Carvalho da SIlva a falar na apresentação de um movimento pelo sim na Madeira. Dizia o sindicalista da CGTP que as mulheres eram "obrigadas a abortar". Surpreendentemente este seria o argumento forte para liberalizar a "interrupção voluntára da gravidez". Se até aqui já se tinha chegado à conclusão que o termo "voluntário" não se referia à vontade da criança com 10 semanas de gestação, entidade menos tida nesta matéria pelos libertários do sim, agora sabemos também que a própria mulher não toma a decisão de abortar decisão voluntariamente.

Os movimentos do não andam a dizer exactamente isso de há 10 anos para cá. A liberalização do aborto obrigaria as mulheres a abortar, pois a sociedade abster-se-ia de lhes oferecer as alternativas ao aborto. Seja por razões económicas, seja por inércia das instituições, as alternativas para levar até ao fim uma gravidez seriam automaticamente vedadas, quer à criança, quer à sua mãe. Se queremos dar liberdade à mulher e à criança, temos que rejeitar esta liberalização. Temos que votar não ao aborto.

Ler:" A outra face do boneco antiaborto"

Na sua edição de 23 de Maio de 1998 o jornal Expresso publicava um artigo no qual dizia que as feições de um bebé de 9 semanas de gestação não são tão bem definidas quanto as que se podem ver no modelo de feto que os movimentos pelo Não têm distribuído. Este artigo é um dos desmentidos que foram enviados para o referido jornal. Não foi publicado.
in Juntos pela Vida.


O artigo encontra-se aqui e foi escrito po Paolo Casella, Cirurgião Pediátrico. Vale a pena ler!

870


"A 'questão do aborto' em Portugal é uma história já adulta. Há mais de 20 anos, quando alguns dos actuais eleitores não eram sequer nascidos, a discussão centrava-se à volta do início da vida humana. Por um lado, os pró-vida argumentavam que esta começava no princípio, na concepção. Por outro lado, os pró-escolha defendiam que ninguém sabia quando começava a vida humana, e um "conjunto de células" nas primeiras semanas de gravidez não o era certamente. Os dados científicos eram escassos e havia um grande desconhecimento sobre o desenvolvimento do feto.
Há oito anos o primeiro referendo sobre a IVG (interrupção voluntária da gravidez em PPC, português politicamente correcto) mostrou uma clivagem entre a opinião pública e a publicada: teve uma abstenção superior a 70 por cento e o "não" ganhou.
Nos últimos oito anos assistimos a várias tentativas de colocar a questão do aborto na agenda política. O "flagelo do aborto clandestino" foi considerado argumento principal, apesar de os escassos e incompletos dados oficiais mostrarem um número reduzido de internamentos por complicações de aborto fora do quadro legal (1426 internamentos em 2004, 89 por cento por aborto incompleto ou retido, apenas 56 infecções e ausência de mortalidade; dados da Direcção-Geral de Saúde). Foi-nos repetidamente perguntado se queríamos "mandar as mulheres para a prisão". Contudo, as poucas mulheres julgadas até hoje tinham todas abortado com mais de dez semanas de gravidez e daí não resultaram penas de prisão. A eventual legalização do aborto até às dez semanas "por opção da mulher" criminaliza-o a partir das dez semanas e um dia, pelo que estas questões da humilhação, julgamento e eventual condenação se mantêm a partir daí.
A mãe deve ser compreendida e ajudada, mas não podemos desviar a nossa atenção da outra vida em questão, a do feto, que, por ser frágil e indefesa, depende da nossa protecção. Porque actualmente, passados mais de 20 anos, já não pode ser dito que o feto não é vida, pois a ciência mostrou-o de um modo claro e comovente. Pode causar surpresa a alguns, mas é hoje consensual entre a comunidade científica que, às dez semanas (para aplicar o limite arbitrariamente proposto pelo actual referendo), o tal "conjunto de células" se encontra organizado de um modo que é impossível não ser reconhecido como um ser humano.
Avanços recentes na cardiologia fetal mostram que o desenvolvimento do coração ocorre entre as três e as seis semanas de gestação, e que por volta do 20.º dia este já bate. Entre a 8.ª e a 9.ª semana, o coração está formado com as estruturas cardíacas, ocupando já as posições e realizando as suas funções definitivas. Às dez semanas, o coração do feto assemelha-se muito ao coração adulto, quer externa, quer internamente. As mais delicadas estruturas cardíacas, como os milimétricos folhetos da válvula aórtica, estão formadas e vão continuar a sua maturação e diferenciação. Às dez semanas, a função circulatória está estabelecida e só vai alterar-se após o bebé nascer, com a adaptação à respiração. O coração bate com regularidade e variabilidade, e a complexidade das funções sistólica e diastólica é comparável à dos adultos.
Sem estigmatizar as grávidas, antes acolhendo-as e aos seus bebés, é nosso dever como profissionais de saúde tornar as "barrigas transparentes", de modo a ajudar os portugueses a compreender que lá dentro está uma pessoa, que, se tiver dez semanas de gestação, tem um coração que bateu 870 vezes durante a leitura deste artigo.

José Diogo Ferreira Martins
Cardiologista pediátrico, in Publico, 12.12.2006

A palavra aos poetas (IV)

A princípio simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

É então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho


Chamava-se Sara

Escreve Inês Pedrosa esta semana na "Única" uma crónica que me merece resposta. (Acesso apenas para utilizadores registados).

Ninguém é poupado neste artigo: a cronista distribui "chapada" para todos os lados num tom azedo: assistentes sociais, vizinhos e acórdãos dos tribunais que nada têm a ver; mete a Igreja ao barulho e expõe os nomes de pessoas relacionadas com o caso com o objectivo de uns e outros, pessoas e instituições, serem submetidas a um julgamento popular em praça pública.

Começa, num exercício de escrita tocante e pungente - sem ironia!-, por descrever o dia-a-dia de pesadelo da Sara, a menina de dois anos que morreu vítima dos maus tratos dos seus pais.
Ninguém ficou indiferente perante aquele caso de violência sobre uma criança indefesa; parte o coração ver até que ponto chega a maldade ou o descuido ( no sentido jurídico-penal de "negligência") de um adulto que aniquila a vida à qual deu existência.

E concordarão os crentes que "Sara mereceria ter entrado no Céu - tem de haver um céu que faça justiça a estas crianças - com as palavras carinhosas e sábias que o Menino Jesus teria para ela, se ainda andasse por este mundo".
Em determinados momentos do artigo, chegamos até a estar em absoluta sintonia e comoção com as palavras de Inês Pedrosa.
Mas, de repente, o raciocínio dá uma cambalhota lógica: "O comum dos mortais talvez não perceba a relação entre o dinheiro, o aborto e a morte de Sara" e começa a discorrer sobre a Igreja Católica. A mim, defensor do não e contribuinte, salta-me à vista qual a relação entre as finanças, a IVG e os maus tratos a crianças, sem ter de transformar a Igreja numa variável da equação. Custa-me a crer que os olhos de Inês Pedrosa estejam assim tão fechados.

O meu raciocínio é relativamente simples e expressa-se de forma sumária:
- A Sara era uma pobre menina cuja disfunção familiar resultava da falta de instrução e dinheiro;
- A Sara era uma menina triste que tinha direito a aprender a brincar e a sorrir como os outros meninos do infantário com quem não conseguia relacionar-se;
- A Sara devia ter sido dispensada dos "dedos cortados, manchas negras no corpo";
- A Sara tinha direito a viver a sua vida e a ser feliz;
- A Sara merecia que o Estado estivesse ao lado dela e investisse todos os recursos necessários na sua protecção, na sua integridade, na sua integração e no desenvolvimento da sua personalidade;

Inês Pedrosa prefere esconder o seu raciocínio e atacar a Igreja quando as opções orçamentais são feitas pelo Estado ( e eis aqui mais um caso em que quem trás argumentos religiosos à colação são os movimentos do sim).

Há que explicar, portanto, o raciocínio subjacente: "São cem mil as crianças portuguesas em risco"; em vez de o Estado investir tudo na sua reabilitação social e no apoio às suas mães, parte do dinheiro ( que é escasso e não estica) deve ser aplicado em, a priori, eliminar parte dessas mesmas vidas (digo "vidas" e não "pessoas" para não criar constrangimentos filosóficos). É uma forma de reduzir aquela cifra vergonhosa. Nisso todos concordarão, mas apenas alguns - estou convencido que a minoria - aceitarão.

Na análise estamos de acordo: "Sempre que um adulto é feito refém em Portugal ou no estrangeiro, o Estado defende-o, como é sua obrigação. Às crianças (dentro ou fora da barriga da barriga da mãe, acrescento eu), continua a tratá-las como propriedade dos que as fizeram". E de facto "é mais fácil pretender amar uma criança morta do que amar uma criança viva".

Nós continuamos a defender que a Sara deveria ter tido a possibilidade de viver a sua vida de uma maneira sã, livre de violência, económica e afectivamente amparada. E você, Inês?

Isto não é demagogia. Há que escolher prioridades.

Tem toda a razão, "neste ano novo, temos de ser capazes de dizer: basta"! Vote Não!




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