Comparações apressadas
Segundo alguns defensores da liberalização do aborto, se o sim à alteração da lei ganhar, Portugal ficará ao nível "dos países civilizados", que permitem a "escolha". É certo que o nosso país, na maioria dos casos, está longe de muitos padrões de civilização que caracterizam quase toda a Europa, os Estados Unidos ou a Oceania. Mas se há excepções, a defesa da vida humana é precisamente a mais notória. Seria bom relembrar, por exemplo, o baixíssimo nível de mortalidade infantil que há entre nós.
Mais conhecido é o pioneirismo português na abolição da pena de morte. A última execução ocorreu em 1846, em Lagos, e a pena foi abolida em 1867, com a aprovação de noventa por cento dos deputados das Cortes. Muito antes da maioria dos nossos vizinhos europeus: relembre-se que a Espanha, em 1975, ainda executava pessoas com garrote; o Reino Unido só aboliu a pena capital em 1973, e a França em 1981. Quanto aos Estados Unidos, onde o aborto também é livre, são bem conhecidos os tristes números dos seus corredores da morte, onde durante anos se acumulam presos destinados à injecção letal, à cadeira eléctrica e mesmo à forca (ainda prevista em alguns estados).
Por isso, seria mais sensato fazer as comparações com os ditos "países civilizados" com base em valores idênticos, e não em razões socio-económicas, ou de outra natureza, que, por muito importantes que sejam, não são comparáveis ao direito universal à vida humana. Podemos - leia-se "os portugueses" - precisar de infinitas lições, mas neste caso creio que nos cabe a nós administrá-las a outros que só tardiamente chegaram a um patamar que há muito já ocupávamos.

3 Resposta(s) a “”

  1. # Blogger Ricardo Lemos

    caro amigo, o que está em causa é só se a mulher deve ou não ser penalizada, é acerca disso que se exige resposta.  

  2. # Blogger José Alberto Ortigão de Oliveira

    Mais importantes que razões economicistas nesta questão, importa sim defender a vida enquanto base e origem de todos os valores.
    O que frequentemente acontece é que à jovem mãe não são dadas as condições sociais, económicas e mesmo afectivas que lhe permitam aceitar sem constrangimentos a maternidade, algo seguramente difícil de perder de consciência tranquila. Por outro lado, as consequências do aborto para a mulher estão perfeitamente identificadas, mesmo quando a interrupção se dá às 10 semanas.
    A par da falsidade dos pressupostos que estiveram na base deste referendo está também uma forte relativização de princípios sempre consagrados e aceites por todos. O caráceter de certos pontos de referência absolutos não é tanto a afirmação do conservadorismo mas a aceitação da humanidade.  

  3. # Blogger JMM

    Caro Ricardo Lemos,

    A verdade é que na pergunta do referendo estão verdadeiramente 3 perguntas:

    1. Se concordamos com a despenalização
    2. Se concordamos com o aborto a pedido (só) da mulher até às 10 semanas (daí falarmos em aborto livre ou liberalização até às 10 semanas)
    3. Se concordamos que o SNS financie os abortos (em estabelecimentos de saúde autorizados - desviando os nossos impostos das verdadeiras necessidades

    Eu até gostava de concordar consigo mas a pergunta do referendo é esta:
    "Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"  

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